segunda-feira, 21 de junho de 2010

Padre Calixto - 55 anos de ordenação sacerdotal


Foto: Luiz Carlos Paes Vieira

O Padre Calixto - um dos membros fundadores da ALI - completou 55 de ordenação sacerdotal no último dia 4 de junho. A data foi comemorada com festa e a comunidade iperoense participou da celebração especial realizada em 5 de junho. A celebração fez parte das comemorações da tradicional Festa de Santo Antonio.
Figura marcante e presente em momentos importantes da história da cidade, o Padre Calixto dedica seus trabalhos à igreja de Iperó há 45 anos. Esteve na cidade (quando ainda distrito de Boituva) entre 1957-1958 e depois, de forma definitiva, a partir de 1967, ano em que a antiga capela foi elevada à categoria de Matriz e sede de paróquia. Paralelamente às atividades na igreja, lecionou por mais de 20 anos na rede estadual de ensino e foi o responsável pela pesquisa que resultou na escolha da frase presente no Brasão de Iperó: VITAM IMPENDERE VERO (Consagro a vida à verdade).
Transcrevemos a homenagem ao Padre Calixto:

"Cada dia que vivemos é uma ocasião especial. E muitas pessoas com as quais nos encontramos durante a nossa vida, acabam misturando os caminhos delas com os nossos. Elas nos ensinam e nós as ensinamos. Assim é o Padre Calixto, que há tantos anos tem se dedicado à nossa igreja e à nossa cidade, participando de diversos momentos da vida de cada um de nós, dos nossos familiares, amigos e pessoas próximas.
Quantos iperoenses foram batizados pelo Padre Calixto? Quantos receberam a unção dos enfermos? Primeira eucaristia? A quantos casais ele declarou “marido e mulher”? Quantas vezes, dizendo “Isto é Meu Corpo; Isto é Meu Sangue”, o padre trouxe Jesus até o nosso altar? Em quantas ocasiões ouvimos chamar-nos “caríssimos irmãos no povo santo de Deus”?
Após anos de ininterrupto trabalho em Iperó, tornam-se perguntas difíceis de serem respondidas precisamente. Quantos bons exemplos o Padre Calixto deu à nossa comunidade? Talvez o maior de todos seja o exemplo de uma vida integralmente fiel ao Evangelho e à vocação sacerdotal.
Nasceu em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, em 11 de novembro de 1928. Foi chamado de Antonio Martins. A família de tradição religiosa o incentivou desde cedo a seguir o sacerdócio. Filho de dona Maria Martins e do professor Antonio Manoel Martins, o Padre Calixto iniciou os estudos na escola fundada pelo pai. Era 1935 e paralelamente aos estudos, o padre trabalhava na roça para ajudar a família.
Influenciado pelos pais, foi encaminhado a um Seminário Preparatório Salvatoriano, em 1942, na cidade de Videira, também Santa Catarina. Esse ano, porém, o marcou por outro motivo: a perda do pai em decorrência da tuberculose. Um ano depois, aos 15 anos, mudou-se para Jundiaí, onde completou os cursos ginasial e secundário no Seminário Menor. Cursou Filosofia e Teologia e terminou a formação na capital paulista. Em 4 de junho de 1955, foi ordenado sacerdote em Santo Amaro, através da imposição das mãos de Dom Paulo Rolim. Começou a vida pastoral na vila Arens, em Jundiaí, em 1956, onde também lecionava. Desde então, passou a usar o nome Calixto, para diferenciá-lo como padre e professor. Como padre passou a ser chamado Antonio Calixto, e como professor, Antonio Martins.
Entre 1957 e 1958, passou diversas vezes e atuou como padre no então distrito de Iperó, ainda pertencente ao município de Boituva. Na época, residia no Seminário de Conchas e não imaginava que tempos depois viria a ser o primeiro pároco daquela igreja dedicada a Santo Antonio.
Posteriormente seguiu para Fortaleza, onde atuou na periferia e lecionou até 1961. Problemas na visão o obrigaram a voltar para São Paulo, onde os recursos médicos eram maiores. Passou pelo Hospital das Clínicas, Instituto Penido em Campinas e seguiu para Belo Horizonte. Como nenhum desses locais apresentou um diagnóstico positivo de recuperação, foi buscar tratamento na Europa. Em Barcelona, na Espanha, se submeteu a cirurgia e permaneceu por um ano e meio naquela região. De volta ao Brasil, chegou a atuar na cidade de Vassouras, Estado do Rio de Janeiro, onde permaneceu por dois anos.
Em 1967, com a criação da Paróquia Santo Antonio, no novo município de Iperó, foi convidado por Dom José Melhado Campos para ser o pároco. Primeiro pároco. Já conhecido no local, tomou posse após um período de turbulência em que a igreja esteve fechada devido a desentendimentos entre o padre Olavo Munhoz – pároco em Boituva e responsável pela igreja de Iperó – e o prefeito José Homem de Góes.
Durante 28 anos, o Padre Calixto dividiu-se entre a educação e a igreja. Inicialmente lecionou no próprio município, na escola “Gaspar Ricardo Júnior”. Depois foi para São Paulo, onde morava durante a semana e somente podia voltar à paróquia nos fins de semana. Concluiu os cursos de Desenho, Pedagogia, Estudos Sociais e Educação Artística. Além de alemão, espanhol, francês, inglês e latim. Mesmo com as dificuldades, sempre procurou desenvolver a missão sacerdotal da melhor forma possível.
Um dos objetivos, enquanto esteve à frente da paróquia, era construir uma nova igreja matriz. Isso se concretizou após 1995, com a chegada do novo pároco, padre Inácio Kriguer, com o qual cultivou uma grande amizade. Sob a liderança do padre Inácio, o novo templo foi construído e inaugurou-se a nova matriz em janeiro de 2000. Hoje, Padre Calixto, completando 55 anos de ordenação sacerdotal, Iperó tem o privilégio de tê-lo como pároco ou vigário durante 45 anos. Enquanto um trabalhador se aposenta com 35 anos de serviço, muitas vezes com dificuldade, o senhor tem se mostrado um incansável. Mesmo após alguns problemas de saúde, que o submeteram a cirurgias, sua força de vontade em levar adiante sua missão, é grande. Então, foi a partir dos sentimentos de respeito, gratidão e estima por sua figura de sacerdote e homem, que nasceu essa nossa homenagem.
Queremos parabenizá-lo e agradecer por tudo o que o senhor já fez por esta cidade e esta comunidade durante todo esse período caminhando junto ao povo iperoense. Muito obrigado, “Padre Calixto”. Que Deus continue lhe abençoando, para que esta data, festiva e alegre, possa se repetir por muitos anos."

Hugo Augusto Rodrigues
Academia de Letras de Iperó – Cadeira 11 – Patrono: Mário Quintana

Mulheres de têmpera!

Já vi rostos puros e perfeitos
De mulheres devotadas ao lar
E no labor do ferro os trejeitos
Das operárias nos teares a fiar.


Vi moças esmerilhando o aço
Mãos a manejar empilhadeiras
Nas oficinas moldando o traço
Na concha da forja as fogueiras.


São mulheres gentis e corajosas
No olhar se conservam formosas
Girando gruas suspensas no fluxo.


Enquanto as soldas soltam faíscas
Nas labaredas brandas ou ariscas
O ferro guza ganha formas de luxo!


Lázaro Piunti
Academia de Letras de Iperó – Cadeira 12 – Patrono: Saint Exupéry

Símbolo dos sonhos desfeitos!

Perguntam os curiosos quem sou eu?
Penetrando nos desvãos do meu arquivo virtual, essas pessoas vasculharam as reentrâncias e os escaninhos de minha alma.

Queriam descobrir e ainda tentam rasgar os segredos ocultos no escrínio do meu coração.

Malgrado todo o empenho não desvendarão os meus mistérios.

Pois eles são feitos de mágoa e angústia, solidão e tristeza!
Sou alguém que experimentou as delícias do céu e, num repente, viu-se arrojado ás profundezas do inferno.
Sou o resignado que desperdiçou a seiva. O descuidado semeador de primaveras! O amante que se feriu sucumbindo à paixão, o sonhador que ambicionou celebrar o amor divino e se perdeu!

Quem sou eu, afinal?
Sou restos da voz que se calou. Sou tentativa de herói que não venceu. Sou a filigrana de faíscas de sol que as nuvens cobriram com as sombras do esquecimento. Ou vestígios de luar desbotado pelo encantamento.
Sou metáfora e parábola, próclise e mesóclise, meio sem começo, fim que não tarda, um amanhã sem esperança!
Imagem que perdeu o reflexo, paisagem que o mal lhe furtou a cor, sou a vítima convertida em réu, o mártir da insignificância.
Sou isso tudo e sou nada!

Lázaro Piunti
Academia de Letras de Iperó – Cadeira 12 – Patrono: Saint Exupéry

Solenes arbustos!

Um dia me levarão á floresta dos homens.
E meu corpo, adormecido, não sentirá mais frio.
Envolto no vulto apático em que me transformei, ali ficará inerte, livre de preocupações humanas.

As pessoas retornarão ao cotidiano e, por algum tempo ainda, se lembrarão de mim. Pouco a pouco, seguindo o rumo natural da vida, o pensamento se ocupará de novas e mais suaves atrações.

Enquanto isso, plantado entre arbustos de cruzes, solenemente permanecerá meu corpo entre as brumas cinzentas do calcário.

A antiga carapaça que serviu de templo ao meu espírito definhará.
Invólucro frágil, pouco resistirá à ação do tempo. No começo estufará, rompendo a pele e se expondo, numa espécie de grito tresloucado a exigir liberdade tardia. Melhor não ver!
E a deterioração se consumará enfim, misturando-se ao pó irmão.

Já o espírito voará de véspera, cumprindo a sina escolhida.
Se em vida eu fui um bom sujeito, prometidas dádivas me nutrirão.
Se minha conduta existencial foi indigna, por justiça o pedágio a pagar não será pequeno.

Restará, em uma ou outra circunstância, a fatal lembrança da frase do filósofo, quando espreitava a vinda do seu próprio martírio:

- “A única coisa que sei é que nada sei”!!!

Lázaro Piunti
Academia de Letras de Iperó – Cadeira 12 – Patrono: Saint Exupéry

Dois momentos!

Sábado de outono.
A manhã ainda guardava uns restos do frio da madrugada. Mas o sol brilhava no azul do infinito. Um brilho intenso. Forte. Luminoso!

Passei defronte a uma Igreja. Regurgitava de gente. Dei um tempo.
E logo descobri o motivo de tanta euforia e riso. Era a cerimônia de um casamento. À porta do templo a noiva - em seu esfuziante vestido branco - apertava um buquê de flores nas mãos. A seu lado o noivo disfarçava a emoção. Meninas feitas daminhas de honra, corriam em ziguezague pelas alamedas da praça. Parentes e amigos dos nubentes se abraçavam. E riam. Eu vi muita alegria ali!

Afastei-me!
Caminhei sete quadras para me deparar com um aglomerado de pessoas a se espremer á porta de outra igreja. Avançando pelas laterais da nave, vislumbrei um cenário tão solene como o anterior, mas carente de sorrisos. Vazio de alegria!
O sacerdote finalizava as orações pela alma de um menino falecido na véspera, vítima de acidente no trânsito. Vinte anos!
Os pais se debruçavam sobre o caixão branco, misturando seus soluços. Junto a ambos, um casal de filhos adolescentes chorava pelo irmão morto e pelos pais. Mortos vivos. De dor. E de tristeza.

Dois momentos. Humanos - mas diferentes.
Um, a simbolizar a vida, outro, a despedida.
Aquele, o começo de um novo ciclo - este, o findar de um tempo.
Refletindo sobre estes instantes tão distintos, saí lentamente a caminhar a esmo, nesta manhã de sábado ainda frio.
Cismei com o sol. Ele brilhava para os felizes. E o seu brilho era igual para a porção dos tristes. Indiferente ao riso e à lágrima.
Estranho mundo das contradições. Do vice e versa. Do indecifrável mistério da vida!

Choro e riso, alegria e pranto, tristeza e festa!
Em silêncio proferi uma prece. Ao Deus do Desconhecido!

Lázaro Piunti
Academia de Letras de Iperó – Cadeira 12 – Patrono: Saint Exupéry