Já aconteceu com você de entender
errado a letra de alguma música, decorar
a dita cuja e ocupar sua imaginação com cenas improváveis relativas a ela?
Muito já se escreveu sobre isso, mas o assunto não se esgota. Comigo não foi
diferente. Fui vítima da marchinha de carnaval “A
jardineira”. Lá vai um trecho:
“_ Ó jardineira, por que estás
tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu:
- Foi
a camélia que caiu do galho,
deu dois suspiros e depois morreu.”
Passei a infância ouvindo a música e desde
logo fui tratando de interpretar a narrativa:
Não sei por quais cargas d’agua, meu
pai chamava ônibus de jardineira. Assim na minha cabecinha infantil lá vinha um grande coletivo da Viação São Jorge – linha
Iperó/Boituva - trazendo no peito uma grande tristeza por conta do ocorrido com uma mocinha chamada Carmela, vítima fatal de um grave acidente.
Bom, naquela época eu tinha menos
temor da morte em si do que da figura do morto. Então não me era agradável
pensar naquela figura feminina
tragicamente acidentada, em curta
agonia, caída em alguma calçada. E o tal do galho me encasquetava. O que uma mocinha
de nome pouco usual fazia pendurada num galho de arvore?
Um dia, não agüentando a dúvida, indaguei meu
pai. Ele riu da minha confusão e me explicou que se tratava simplesmente de uma
florzinha que havia se desprendido de seu canteiro, também chamado jardineira!
Resolveu a questão? Que nada, alguém
aí se lembra da Bruxa do Norte, do “Mágico de Oz”? Eu sempre tive medo de bruxas e ainda assim achei
o final daquela especialmente
apavorante: transformada em flor e
pisoteada pela multidão incontrolável. Um linchamento, eis tudo.
Voltando à marchinha, seu final
não me consolava:
“Vem
jardineira, vem meu amor
Não fiques triste que este mundo é
todo seu
Tu és muito mais bonita
Que a camélia que morreu.”
Ao fim e ao cabo, pouco me importava o
destino do São Jorge ou das demais
camélias que habitavam aquela jardineira (suspensa em grande altura,
diga-se). Sempre fico triste pensando se
mais alguém pranteou a florzinha
morta...
Cristina Sônego
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