domingo, 11 de novembro de 2012

 “ A JARDINEIRA”

 

Já aconteceu com você de entender errado a letra de alguma música,  decorar a dita cuja e ocupar sua imaginação com cenas improváveis  relativas a ela?  

Muito já se escreveu  sobre isso,  mas o assunto não se esgota. Comigo não foi diferente. Fui vítima da marchinha de carnaval   “A jardineira”. Lá vai um trecho:

 
“_ Ó jardineira, por que estás tão triste?

Mas o que foi que te aconteceu:

 - Foi a camélia que caiu do galho,

deu dois suspiros e depois morreu.”

 
Passei a infância ouvindo a música e desde logo fui tratando de interpretar a narrativa:  

Não sei por quais cargas d’agua, meu pai chamava ônibus de jardineira. Assim na minha cabecinha infantil lá vinha  um grande coletivo da Viação São Jorge – linha Iperó/Boituva -   trazendo  no peito uma grande tristeza  por conta do ocorrido com uma mocinha chamada  Carmela, vítima fatal de um grave acidente.


Bom, naquela época eu tinha menos temor da morte em si do que da figura do morto. Então não me era agradável pensar naquela figura feminina  tragicamente acidentada,  em curta agonia, caída em alguma calçada. E o tal do galho me encasquetava. O que uma  mocinha  de nome pouco usual fazia pendurada num galho de arvore? 

 Um dia, não agüentando a dúvida, indaguei meu pai. Ele riu da minha confusão e me explicou que se tratava simplesmente de uma florzinha que havia se desprendido de seu canteiro, também chamado jardineira!


Resolveu a questão? Que nada, alguém aí se lembra da Bruxa do Norte, do “Mágico de Oz”?   Eu sempre tive medo de bruxas e ainda assim achei o final daquela  especialmente apavorante:  transformada em flor e pisoteada pela multidão incontrolável. Um linchamento, eis tudo. 

Voltando à marchinha, seu final não  me consolava:

“Vem  jardineira, vem meu amor

Não fiques triste que este mundo é todo seu

Tu és muito mais bonita

Que a camélia que morreu.”

Ao fim e ao cabo, pouco me importava o destino do São Jorge ou  das demais camélias que habitavam aquela jardineira (suspensa em grande altura, diga-se).  Sempre fico triste pensando se mais alguém  pranteou a florzinha morta...
 
Cristina Sônego

 

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